sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Pelotão

Um líder reconhecido de uma grande empresa um dia disse que o mundo de trabalho era como um prova de ciclismo. É uma prova longa, com altos e baixos e algumas quedas pelo caminho. Os participantes vão tentando a todo o custo se manter em prova. No início, enquanto estão no pelotão, apoiam-se e trabalham em conjunto, sobretudo quando há uma fuga. No entanto, mais perto da meta, atropelam-se, acotovelam-se para ver quem chega primeiro ao fim.

O mundo do trabalho é como uma corrida de ciclismo dizia ele, no final é um chega para lá para ver quem chega primeiro ao fim, e nem sempre o melhor ganha. Não conheço nenhuma vertente da realidade que seja justa, o mercado de trabalho não foge à regra. Os liberais mais extremistas dizem que os meios justificam os fins, neste caso, esta corrida, esta competição e a sobrevivência do mais esperto e ambicioso traz benefícios para sociedade.
Concordo com parte da permissa, a competição, bem como a discussão, é fonte de inovação e conhecimento. No entanto, quem está por cima gosta sempre de se esquecer que uns começam a corrida mais à frente que outros, uns vão de mota e outros de bicicleta.

Viriam os liberais mais extremistas dizer novamente, que na prossecução dessa elevação social, são os mais pobres e fracos que ambicionando um melhor estado de vida, fazem avançar a sociedade. Esquecendo deliberadamente que a maioria cai pelo caminho. A verdade é que para quem é liberal, os meios justificam os fins.

Assim, concluo pelos liberais mais extremistas que não faz parte do ser humano preocupar-se realmente com o outro, que na prossecução do seu interesse individual, custe o que custar, o avanço da sociedade é assegurado.

Como céptico pergunto: avançar para onde?
Como crítico pergunto: vale a pena sacrificar a gente do presente, numa simulação da selva, em que os lobos dizem às gazelas que: "somos todos iguais", e que: "não há problema pastarem junto das alcateias"? E se são comidas "não fui eu, vocês é que têm de trabalhar para ser um dia como eu". Vamos retornar a corrida do chega para lá.

Concordo que deva haver discussão e competição, mas concordo que hajam regras que protejam aqueles cujos direitos possam ser sacrificados por privilégios questionáveis de outros. Porquê? Porque não aceito a mentira dos privilegiados: exigirem algo e pintarem um quadro de liberdade e igualdade, quando por trás negam constantemente a liberdade e prejudicam os outros em seu benefício.

Ora, se querem continuar o quadro actual, assumam-no perante toda a gente. Assumam que quando a altura chegar e tiverem de sacrificar o seu interesse por um dependente, sacrificam o dependente com um sorriso na boca: "É a vida. Tens de te esforçar mais. É a conjuntura, não temos culpa.".

Não temos culpa. Eu não tenho culpa. Tu não tens culpa. Ninguém tem culpa. O tempo tem culpa, a natureza tem culpa. Por isso, vamos aboliar a culpa da realidade humana, apenas tem culpa a conjuntura.

E vamos lá embora correr, sabendo que a qualquer momento podemos ser atropelados por alguém que anda de mota, enquando nós vamos de bicicleta.

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